Morre Jean-Christophe Yoccoz, Medalha Fields e Pesquisador HonorĂ¡rio do IMPA

A Matemática perdeu, aos 59 anos, o francês Jean-Christophe Yoccoz, vencedor em 1994 da Medalha Fields, a maior distinção mundial na área. Professor do Collège de France, doutor pela Universidade de Paris-Sud e pesquisador honorário do IMPA, ele morreu neste sábado (3), em Paris.

 

Yoccoz era um grande amigo do IMPA e da comunidade matemática brasileira. Sua relação com o Brasil começou nos anos 1980, quando veio fazer pesquisa no IMPA como parte do programa de “cooperação” do governo francês, substituindo o serviço militar. No Rio de Janeiro, conheceu a futura mulher, a maranhense Dalva, com quem teve um filho, Tiago, e que o ajudou a aperfeiçoar seu português, carregado de sotaque francês.

 

Com um sorriso suave, modéstia e simpatia, Yoccoz era talvez o mais brasileiro dos matemáticos franceses, e deixa muitos amigos no país. Na opinião de Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA, “pouquíssimas pessoas contribuíram tanto quanto ele, a partir de fora, para o prestígio internacional de que a matemática brasileira disfruta atualmente”.

 

Especialista em sistemas dinâmicos e grande divulgador da matemática, Yoccoz era membro de diversas organizações acadêmicas internacionais, entre as quais a Academia de Ciências da França e a Academia Brasileira de Ciências. Ao falar de sua relação com a Matemática, disse: “O prazer que eu tenho em fazer a matemática é semelhante ao que sente um artista ao criar uma obra.”

 

O brasileiro Artur Avila, também ganhador da medalha Fields, em 2014, fez o pós-doutorado com Yoccoz no Collège de France e escreveu quatro papers em colaboração com ele – um quinto, em andamento, será finalizado por Artur e Carlos Mateus Silva Santos. “Sem dúvida ele foi fundamental nas relações França-Brasil na Matemática e nos Sistemas Dinâmicos. Pessoalmente, influenciou meu estilo, a maneira de ver e fazer matemática e as escolhas de temas”, disse Artur.

 

Coube a outro brasileiro, o ex-diretor do IMPA Jacob Palis, colaborador e amigo de longa data, o privilégio de dividir um momento histórico com Yoccoz: dar a ele pessoalmente a notícia de que ganhara a Medalha Fields, em 1994. Palis era, então, secretário-geral da União Internacional de Matemática. “Ele ficou mais emocionado do que surpreso”, lembra-se o brasileiro. Nos anos que se seguiram, Palis faria mais cinco trabalhos com Yoccoz, o último deles de 217 páginas, publicado em 2009. “Yoccoz deixou uma marca muito forte no Brasil, influenciou muitos matemáticos. Era absolutamente excepcional, brilhante. Deixa um grande vazio.”

 

Yoccoz admitia orgulhar-se de sua maior conquista, mas disse que a Medalha Fields não era uma meta. “Não tinha estabelecido nenhuma estratégia, não trabalhei de forma alguma com o objetivo específico de receber essa recompensa. É verdade que ataquei voluntariamente problemas muito difíceis dentro de minha especialidade, os Sistemas Dinâmicos, e foi o que me valeu o prêmio. Mas o fiz unicamente por razões de satisfação intelectual, não pelo prestígio”, afirmou, em entrevista ao jornal do CNRS (Centro Nacional e Pesquisas Científicas da França), há dois anos.